Duas coisas aconteceram no dia 17 de junho de 2010.
Em Recife, o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, sancionou a política de enfrentamento às mudanças climáticas do seu estado. Pernambuco saiu à frente: foi o primeiro estado nordestino a ter uma política desse tipo.
Não muito longe de lá, amanheceu chovendo muito forte, depois de quase quatro dias de chuva (“muito atípico”, segundo Francis Lacerda, coordenadora do Laboratório de Meteorologia de Pernambuco). Lá pelas 5 da manhã, os moradores de todas as cidades das bacias hidrográficas dos rios Una e Mundaú perceberam que a água estava subindo rápido demais. Às 8 já havia tragédia e destruição dos dois lados da fronteira entre Pernambuco e Alagoas. Foi a pior enchente em um século no lugar. Dezessete cidades foram destruídas, 11 mil casas e 79 pontes caíram, pelo menos 54 pessoas morreram.
A coincidência da data conta uma história.
De um lado, há o que celebrar. O último ano, desde o fiasco de Copenhague, foi imensamente produtivo. Quase todos os estados da região começaram a criar políticas estaduais, que vão dar o caminho das pedras para o poder público e a sociedade civil poderem resistir às mudanças climáticas sem muitas mortes ou prejuízos. Surgiu uma rede de pesquisadores para observar o clima do semi-árido. Produziu-se muito conhecimento (veja por exemplo essas publicações).
Do outro lado, é óbvio que começou-se tarde. Os sinais de que as mudanças climáticas já estão se manifestando de maneira brutal são evidentes. Não são só as enchentes. A desertificação avança pela caatinga. Na costa, em especial na de Pernambuco e Paraíba, o mar está cavocando a terra. No sertão nordestino, ao mesmo tempo em que os rios da Zona da Mata davam a sensação de um tsunami, uma seca inesperada causa uma imensa quebra na safra. Veja no mapa abaixo como foram as chuvas pernambucanas em junho de 2010 – muita água num canto, nenhuma no outro:

O Nordeste é a região mais vulnerável do Brasil às mudanças climáticas. Um relatório sobre a Economia da Mudança do Clima no Brasil prevê uma queda de 11,4% no PIB da região até 2050 por fatores climáticos. Um pedaço gigante do território será atingido pela desertificação e não poderá mais ser cultivado – alguns estados, como o Ceará, estão arriscados a perder 80% de sua área agriculturável. Outro documento calcula que o número de refugiados climáticos – migrantes fugindo da seca – deverá aumentar 24% até 2050. Um trabalho sobre agricultura estima que várias culturas irão tornar-se inviáveis, pelo aumento no número de dias sem chuva – inclusive a macaxeira, base da alimentação sertaneja.
Tudo isso é causado exclusivamente pelas mudanças climáticas globais? Não. Certamente não. Há outros culpados: a forma como ocupamos a terra, perto demais de rios e costas, desmatando demais, poluindo demais, impermeabilizando demais.
Mas não importa. Combater as mudanças climáticas e combater essas outras doenças ambientais seguem basicamente a mesma receita.
Mudar a lei, como fez Pernambuco e a Bahia está prestes a fazer, é só o primeiro passo de um trabalho longo de adaptação, que vai envolver mudar populações de lugar para deixá-las menos expostas, reflorestar grandes áreas e rever toda a maneira como se planeja cidades, negócios e plantações. Há muito o que ser feito.
Ao longo deste site, tentamos contar histórias e mostrar imagens que ajudem a entender os desafios e as oportunidades à frente do Nordeste. Nosso foco foi em ideias e ações, não em denúncias.
Há muito trabalho à frente. É hora de começar.
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Publicado em 08.01.2012
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That's clareed my thoughts. Thanks for contributing.
Publicado em 05.01.2012
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Publicado em 06.01.2012
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Publicado em 07.01.2012
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Publicado em 08.01.2012