Ocupação Desordenada

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Ensaio Fotográfico: Bruno Fernandes



Os moradores do morro dos Coripós, na zona Sul de Blumenau, correram para dentro de casa quando viram o carro da prefeitura chegando – é nele que eu estava, de carona. O morro é um dos maiores focos de ocupação ilegal da cidade, e quem mora lá sabe disso, daí a fobia a carros oficiais. Casas foram construídas aos montes desde a década de 1980 de forma irregular, o que culminou em uma série de deslizamentos após a chuva forte que caiu em novembro de 2008. Na época, ruas inteiras foram soterradas e casas se despedaçaram morro abaixo. O desastre que matou 24 pessoas alertou a Defesa Civil para os perigos da ocupação deste e de outros morros na cidade e deixou boa parte de seus moradores apreensivos com a possibilidade de serem expulsos de lá.

O morro dos Coripós é apenas um dos resultados de um péssimo modelo de ocupação na região do Vale do Itajaí. Esse modelo, combinado a mudanças climáticas detectadas nas últimas décadas, está diretamente relacionado aos deslizamentos que atingiram toda a região em novembro de 2008.

Onde tudo começou

Quando aportou na costa catarinense, em 1850, o médico alemão Hermann Blumenau subiu o rio Itajaí até onde hoje é a cidade de Blumenau e iniciou ali a colonização da região. Naquela época, eram vendidos lotes que iam desde a margem do rio até o topo das montanhas.   

Como era muito complicado construir nas encostas, a maioria absoluta das casas ocupou as margens dos rios. Mas, com apenas dois anos de ocupação, em 1852, os colonos presenciaram a primeira enchente registrada do rio Itajaí. De lá para cá, o rio teve aproximadamente 80 cheias acima de dez metros, o que significa uma enchente a cada dois anos na região. O jeito, para quem morava lá, foi se acostumar com as enchentes. Com o passar dos anos, a ocupação do vale se espalhou sem muito controle ou mesmo consciência do impacto ambiental que ia sendo causado.

A mata foi derrubada para a construção de casas e ruas na região do vale. Sem a mata nativa o solo ficou desprotegido e mais vulnerável à chuva.

As margens dos rios foram ocupadas e prejudicaram sua vazão. Os moradores das margens sofrem com enchentes que acontecem, em média, a cada dois anos. 

As encostas que não eram tão íngremes foram ocupadas por fazendas de gado e de banana. Nos dois casos, o solo ficou desprotegido e a região passou a ser vulnerável a deslizamentos.

Os córregos foram canalizados para melhorar a acessibilidade da cidade, mas pioraram o sistema de permeabilização do solo e vazão dos rios e aumentaram as chances de enchentes.

Os ribeirões foram retificados, o que desequilibra o fluxo de água e pode causar enxurradas em algumas regiões, já que o rio reto corre com mais força.

Essas práticas aumentaram a vulnerabilidade do Vale do Itajaí, que ficou mais sensível a possíveis mudanças climáticas que pudessem acontecer. E elas aconteceram. O Centro de Informações de Recursos Ambientais e Hidrometeorologia de Santa Catarina (Ciram) registrou um aumento de temperatura no Estado nos últimos 50 anos que varia entre 1,4ºC e 3,2ºC, dependendo da região. Com isso, os eventos extremos, que já eram comuns em Santa Catarina, ficaram mais intensos e mais constantes.

O reflexo dessas mudanças apareceu logo. Entre 1983 e 1984, chuvas fortes provocaram enchentes mais severas do que as anteriores. Esse evento foi divisor de águas no modelo de ocupação das cidades do vale do Itajaí.

Com medo da chuva, as cidades começaram a verticalizar os vales construindo prédios mais altos e grande parte da população começou a subir os morros para habitar lugares mais altos e, consequentemente, mais protegidos da água. Essas áreas foram ocupadas muitas vezes de forma ilegal, com edificações precárias, em sistemas de auto-construção, sem a ajuda de profissionais, sem a drenagem necessária do solo e com remoção da vegetação. E aí surgiram os deslizamentos, provocados pela soma de quatro fatores: topografia acidentada, geologia frágil, precipitação intensa e ocupação desordenada. 

Ná época dos deslizamentos, os moradores de morros como o dos Coripós foram levados para abrigos na cidade, mas a grande maioria dos que não perderam suas casas nos deslizamentos já voltaram para o morro. Esses fatores continuam lá e não há nenhuma política habitacional para tentar resolver a situação dos moradores ilegais do morro, além das ações de drenagem e monitoramento do solo.

 

 

 

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