Os morros estão derretendo

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Ensaio fotográfico: Bruno Fernandes


Durante cinco dias caminhamos por Blumenau e Ilhota, as duas cidades catarinenses mais afetadas por deslizamentos de terra. Era comum ouvir das pessoas que o morro derrete. A imagem faz todo sentido. Com a chuva intensa, o solo que é argiloso vai se desagregando até virar lama e essa camada bastante espessa desce.

Junto vêm a vegetação e as rochas. E não estamos falando de pedrinhas, mas de rochas imensas que podem chegar a 20 toneladas. “A terra treme e o barulho é como se tivesse um monte de helicópterro passando”, descreve Carlinhos Bananeiro, um dos moradores do Complexo Morro do Baú, comunidade rural de 2.400 pessoas da cidade de Ilhota. Os entulhos, troncos e pedras represam os rios. Quando essa barragem natural se rompe a força com que a água e a lama chegam até as residências é capaz de arrastar objetos, como máquinas de lavar roupa, por quilômetros. Sobreviver é questão de segundos. 

Como não há tempo para correr, as pessoas que decidiram permanecer nessas áreas de risco já sabem que quando a chuva está forte a ordem é abandonar as residências e seguir para abrigos ou casa de parentes. Isso acontece desde 2008, quando Santa Catarina registrou 4 mil pontos de deslizamento, segundo dados da Defesa Civil. Casas foram engolidas e 135 mortes registradas, 131 por soterramento. (Abaixo, confira o documentário com relatos de moradores que vivem em um destes focos de deslizamento.)

Vídeo: Lívia Ascava e Bruno Fernandes

Em muitos casos a morte de pessoas e mesmo a perda dos bens pode ser evitada. Juares Aumond, professor de geologia da Universidade Regional de Blumenau (Furb) há 25 anos alertou a prefeitura de Blumenau sobre o risco eminente de desmoronamento do Morro dos Coripós, onde posteriormente morreram mais de 15 pessoas. Para o major Emerson Emerin, Coordenador da Defesa Civil de Santa Catarina, nos casos em que a desocupação não é viável "os municípios devem investir em educação e informação dessas pessoas que têm que aprender a conviver com o risco. Construir abrigos permanentes que possam receber essas pessoas é fundamental". "O importante é salvar vidas", afirma Tatiana Reichert, Presidente da Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús. 

Somando a reconstrução de pontes, estradas, residências e obras de contenção, o custo aos cofres públicos com medidas de recuperação já ultrapassa os R$ 400 milhões no estado. Para Aumond, o governo tem investido no efeito e não na causa. Exemplos são as frequentes obras de dragagem dos rios e muros de contenção nos pés do morro. "Dezenas de milhões de reais foram perdidos com isso. Enquanto não houver drenagem, que resolve 70% dos casos, construção de taludes e uma sinergia entre áreas, como engenheiros, ecologistas e geólogos, isso vai continuar assim. Eles constróem o muro e uma semana depois você passa e ele foi derrubado por novos deslizamentos. Eles chegaram a derrubar árvores de cima dos morros alegando que elas pesavam! A falta de conhecimento é assustadora", lamenta.

 

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